Hoje Condeixinha é uma das estradas mais concorridas da vila, servindo de escoadouro ao infernal trânsito. O barulho incessante dos pneus na calçada de basalto e o som estridente das buzinas, de noite e de dia, põem em franja os nervos dos pobres moradores. Quando a rua não tinha esse indesejado estatuto, era apenas um caminho com as casas encostadinhas umas às outras, recordando a necessidade medieval de protecção colectiva. No inverno, a água desgovernada corria por aquele caneiro natural, formando sulcos na areia branca do solo batido. Logo a seguir à cortada para a Lapa, onde uma súbita corcova mais acentuava a inclinação, era quase impossível circular. Felizmente, naquele tempo os carros tinham rodas altas e as bestas que os puxavam sabiam onde colocar as patas, evitando os buracos do caminho.

"Olhada da Praça..."
Olhada da Praça, a entrada de Condeixinha apresenta-se como uma nesga entre prédios, quase a tocarem-se lá no alto. Logo à esquerda, a marcar o cunho operário do bairro, onde as oficinas e os moinhos se sucediam, um ferrador, arte entretanto desaparecida por falta de animais que usem ferraduras. A oficina alojava-se num velho prédio profundo e escuro, com desconjuntado portão em frente do qual estacionavam carroças e animais cujos excrementos, misturados com o pó da rua, formavam lama, exalando forte e pestilento aroma e atraindo toda a sorte de bicharada. Lá dentro, uma estrutura em madeira, o tronco, onde se amarravam burros, cavalos e bois, para a ferra. Um aprendiz do ofício accionava o grande fole de madeira e cabedal, a soprar as brasas da forja onde os operários punham o ferro ao rubro para mais facilmente o bater na bigorna até formar a ferradura. Com ela ainda quente, aplicavam-na pata do animal. O fumo e o cheiro acre do casco a ser queimado invadiam o local e transbordavam para a rua. Uma curiosa maquineta movida a manivela, cortava o espesso pelo das bestas.
Mesmo em frente, a casa da Ti Maria Barbeira, que era sardinheira. O filho, Octávio (Távio Barbeiro), exercia a profissão de sapateiro no acanhado rés-do-chão. Recordo dele a figura magra de paciente gástrico. Para combater o mal que o levaria cedo demais ao cemitério, costumava colocar grandes quantidades de bicarbonato de sódio na palma da mão, levando esta à boca sem mesmo acompanhar com água.
Ao lado, era a casa das Patitas, duas simpáticas irmãs com mãos de fada para confeccionar toda a qualidade de bolos. Depois, de porta em porta visitavam fregueses certos, transportando os deliciosos pastéis num tabuleirinho de verga, coberto com alvo pano de linho. Saltavam-me os olhos gulosos ao contemplar aquelas verdadeiras tentações, especialmente as cornucópias, com recheio de creme de ovos. Eram estas adoráveis criaturas as pasteleiras da terra, num tempo em que os estabelecimentos do ramo, os cafés, por sinal apenas três, não davam grande importância à especialidade.
Em frente, a casa da Requetinha Rocha, um lindo prédio tendo ao centro, resguardado com portadas de madeira, um nicho do Senhor dos Passos (seria o mesmo de que fala Santos Conceição?). Este prédio, a ameaçar ruína, foi demolido e no seu lugar construíram enorme e inestético edifício onde colocaram um nicho, sem portas de madeira e sim grades de ferro, como a aprisionar uma imagem só presente na altura da Procissão dos Passos.
Depois, o acesso aos Pelomes!
Pelomes ou Pelames, a etimologia é obscura. Há quem diga terem existido no local pombais, nos quais se aproveitavam os excrementos das pombas para curtir peles. Dai o nome, Pelames, sítio de preparação de peles, topónimo ligeiramente alterado como tempo.
Verdade ou não, certo é ter sido um dos mais característicos locais de Condeixinha.

- “… esconder-se envergonhado da ousadia…”
À entrada, um rio a aparecer como por magia debaixo de um muro e logo a esconder-se, envergonhado da ousadia, sob a casa do Dr.Juiz.
Na apertada curva do estreito caminho, o quintal da Ti Rosalina. Hábil na ciência de tirar dores musculares e endireitar ossos, com azeite e mãos mágicas fazia desaparecer num piscar de olhos, o torcicolo mais persistente. Do seu muro, pendiam para a rua os ramos de uma figueira pingo-de-mel, de frutos estaladiços, tentação para a cachopada ante o desespero da legítima dona. Dessa figueira, ficou para a posteridade uma expressão ainda hoje utilizada na terra,”Vai ao Figo”, cuja origem é reveladora dos tempos então vividos. Nessa altura, quando a fome era companheira de muitos lares, a caça de pequenas aves e a fruta apanhada furtivamente pelos quintais, se não satisfaziam todas as necessidades alimentares, pelo menos tinham a virtude de aplacar no estômago o bichinho inquieto. Às crianças rogantes de um pedaço de pão, respondiam as mães desesperadas:”Vai ao figo da Rosalina!”
Mas os Pelomes têm também a casa do Dr. Juiz! Este belo solar do século XIX é hoje uma das poucas casas antigas de Condeixa em perfeito estado de conservação, graças a Fortunato Rocha, filho do antigo proprietário.

O Dr. Juiz António Pires da Rocha, ilustre condeixense, exerceu durante algumas décadas o seu cargo em várias comarcas. Ainda estudante e em plena monarquia, era acérrimo defensor dos ideais republicanos. Em 5 de Outubro de 1910, no regozijo da implantação da República e já licenciado, ocupou o cargo de Administrador do Concelho e em 1914 foi eleito Presidente da Câmara de Condeixa. De trato afável e integridade a toda a prova, o Dr. Juiz era estimado e considerado por quantos o conheciam. A sua porta, sempre aberta, recebia da mesma forma algum ilustre visitante ou a mais humilde pessoa em busca de conselho ou outro auxílio.

"na curva apertada" com a Rua de Condeixinha ao fundo
(continua)
texto de Cândido Pereira
edição e fotos de MNujo
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