A minha bicicleta

23 08 2011
O meu museu - bicicleta

O meu museu - bicicleta

Um dos meus passatempos é “recuperar” coisas antigas, coisas com histórias.

Na foto, a máquina do meu “avô” emprestado onde aprendi os primeiros passos e quedas.

A máquina à espera do devido restauro, conta na roda de trás com 40 raios (uma raridade ?).  Na loja onde fui comprar peças não acreditaram:

- 40 raios? Não existe – disseram.

Mas existem para quem os quiser contar.





Santa Casa – Antecedentes

23 12 2010

Desde os memoriais tempos da fundação de Portugal que chegam relatos de manifestações de ajuda e beneficência para com os mais carenciados, associadas por norma a ordens religiosas, militares, confrarias e particulares, quase sempre inspiradas na caridade cristã.

Estas manifestações caritativas decorreram de forma dispersa e desordenada até finais do Sec XV, altura em que com a acção da  Rainha D. Leonor sofreram uma profunda alteração que chegou aos nossos com os beneméritos propósitos que instituiu – a Misericórdia.

A Rainha D. Leonor detinha a época a maior fortuna da Europa (quadro de José Malhoa)

A Rainha D. Leonor (de Lencastre, casada com o rei D. João II (n.1455-f.1495), O Príncipe Perfeito) senhora de grande património, distinguiu-se no campo da assistência, ao  criar por volta de 1484[1] o primeiro hospital termal, nas Caldas da Rainha dedicado aos pobres, e na igreja instituiu uma confraria precursora da Misericórdia.

Xilogravura da Vita Christi, primeiro livro impresso em Portugal, em 1495, ilustrando D. João II e D. Leonor de Lencastre

Foi já como viúva (e no reinado de seu irmão D. Manuel I que subiu ao trono em 1495) que há notícia da maioria das obras realizadas:

  • o convento da Madre de Deus em Xabregas;
  • o Convento da Anunciada de Lisboa;
  • a Igreja de Nossa Senhora da Merceana;
  • as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha;
  • sete merceeiras no Convento de S. Agostinho;
  • o apoio às Artes em geral e a Gil Vicente em particular que lavou a incomparável custódia de Belém.

Mas de todas as obras, a “maior” que fomentou e financiou foi o projecto de Frei Miguel Contreiras, seu confessor e mestre espiritual. Resultou desta parceria a Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa que ficou sob a protecção régia em 1498, e que esteve na origem de todas as outras (Misericórdias) que lhe seguiram por todo o país e pelo mundo, sempre com o papel social e caritativo que a rainha cultivou.


Aquele grupo de “bons e fiéis cristãos” que formaram a Irmandade, liderados por Frei Miguel Contreiras, na presença da rainha D. Leonor e das mais altas personalidades religiosas e civis, assumiu o compromisso de se dedicar à prática das 14 Obras de Misericórdia.

As Sete Obras Corporais
1. Dar de comer a quem tem fome.
2. Dar de beber a quem tem sede.
3. Vestir os nús.
4. Dar pousada aos peregrinos.
5. Assistir aos enfermos.
6. Visitar os presos.
7. Enterrar os mortos.

As Sete Obras Espirituais
1. Dar bom conselho.
2. Ensinar os ignorantes.
3. Corrigir os que erram.
4. Consolar os tristes.
5. Perdoar as injúrias.
6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo.
7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.

São estes, passados cinco séculos, os princípios que regem e estão na base da obra social das Misericórdias.


Passados dois anos sobre a fundação da Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa, no dia 12 de Setembro de 1500, por decisão régia de D.Manuel I, a Santa Casa da Misericórdia de Coimbra era fundada, ficando as terras de Condeixa sob a sua alçada.

Nos anos seguintes, Condeixa-a-Nova regista um grande desenvolvimento. Em 1502 D. Manuel I passa por Condeixa a caminho de Santiago de Compostela, onde manda construir uma Igreja. Em 1514 atribui-lhe foral [2],sinal de evidente prosperidade, mas não a suficiente para ter uma Misericórdia (só tinha cerca de 20 fogos). Entretanto, Soure, Pereira, Vila Nova de Anços e Montemor juntavam-se a Coimbra na lista de localidades com Misericórdias.

Em 17 de Abril de 1837 Condeixa-a-Nova passou a concelho, deixou de pertencer ao de Coimbra, mas só em 1 de Janeiro de 1839 toma posse o primeiro executivo liderado por Franscico de Lemos Ramalho Azeredo Coutinho. Em 1885 a população de Condeixa-a-Nova tinha aumentado para 1159 habitantes e  com o passar do tempo aumenta também o desejo de ter uma Misericórdia.

Isto não foi motivo para não se praticar a caridade e a ajuda ao próximo. A Misericórdia de Coimbra ia dando o apoio social com as limitações de quem está longe. Localmente o apoio social completava-se pela acção dos particulares. As casas mais abastadas não fechavam a porta aos famintos e mesmos aqueles que pouco tinham repartiam o que mal lhes chegava para sobreviver, uma caracteristica que ainda hoje se verifica em qualquer campanha de angariação de fundos – o povo português é  sensível às desigualdades sociais e  muito dado à partilha.

Existem notícias de ter havido em Condeixa até ao princípio do sec. XIX uma gafaria (para o tratamento de leprosos) e uma albergaria (para acolher os pobres e viandantes), que sendo verdade a sua existência, confirmam e justificam os anseios da população na necessidade de uma Misericórdia que tardava em chegar.

Foi preciso esperar quatro séculos para Condeixa-a-Nova ter a sua Misericórdia  em 1927.

Triste sina duma terra que não tem Bula, Carta Régia ou Foral para mostrar. No entanto, a grande obra da Misericórdia de Condeixa mostra que não existe qualquer estigma pela ausência de título nobre no seu historial.


[1] Há quem indique o ano de 1485.
[2] Do foral só se conhecem referências.





Santa Casa – Introdução

17 12 2010

Sem desprimor por todos aqueles que nos apoiam, nomeadamente outras Instituições do concelho, é importante dizer que sem o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Condeixa (SCMC) a Associação Orfeão Dr. João Antunes provavelmente não existiria. Torna-se difícil retribuir com o mesmo nível de desprendimento esta dádiva incondicional da Santa Casa que nada exige em troca. Pode-se dizer que existe uma ligação fraternal, quase umbilical, entre a SCMC e o Orfeão.

A manutenção quase diária do Blogue do Orfeão por vezes exige referências e notícias da SCMC. Como é habitual nestes tempos modernos recorre-se à internet, seguindo o lema de que “ lá há de tudo”. Mas, nem sempre as buscas dão em resultados positivos. É o caso da SCMC que não tem divulgação na internet. É “imperdoável” uma instituição tão grande na sua obra social não dar a conhecer a sua história ao mundo e partilhar connosco um pouco da sua vida colectiva. Ao divulgarmos a SCMC, estamos a divulgar Condeixa.

Na impossibilidade de melhor em tão curto espaço temporal, deixarei por aqui um resumo do HISTORIAL DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE CONDEIXA-A-NOVA numa pequena e modesta homenagem feita “em cima do joelho” com os diminutos dados recolhidos, alguns não confirmados e por isso mesmo sujeitos a correcção ou rectificação que aceitarei sem hesitação. Ultrapassadas as limitações apontadas, não teria sido possível chegar aqui sem a prestimosa ajuda dos(as) funcionários(as), do Sr José Panão e do Sr Cândido Pereira, este último sempre pronto e disponível para estes desafios.

Posto isto, a partir de hoje e ao longo dos próximos dias, aqui acontecerá a divulgação de mais uma parte de Condeixa, com a publicação de cerca de uma dúzia de pequenos artigos sobre a Santa Casa da Misericórdia de Condeixa (SCMC).

Ao Sr. Provedor em exercício e funcionários(as), o nosso muito obrigado pela forma carinhosa e afectuosa com que nos aturam.

A todos aqueles que estão ligados hoje e no passado à SCMC,  provedores, mesários, irmãos, incluindo residentes, utentes e ex-funcionários, desejamos um Santo e Feliz Natal.





Saúl Vaio e o Orfeão de Condeixa

14 04 2010

Formação do Orfeão de Condeixa dirigida por Saúl Vaio 1940 (?)

["Aos 5 anos, em 1918, meu Pai tornou-se o elemento mais jovem do Órfeão de Condeixa, fundado pelo Padre Dr. João Antunes, o Célebre Padre Boi.

Disse-me um dia que,  nessa idade, já tinha pleno conhecimento do valor das notas musicais, ou não fosse ele  filho de António de Oliveira, amante e cultor da música popular, que tanto cantou Condeixa.

Essa herança correu-lhe cedo nas veias e soube fazer jus ao nome de seu Pai e meu Avô.

Mais tarde, na década de 40, dirigiu com tal maestria o Orfeão, que não resisto a contar um episódio de que tive conhecimento há dias e vivido por minha Mãe...

Numa apresentação do Orfeão, foi tal a harmonia do canto, que meu Avô, sentado ao lado de minha Mãe e verdadeiramente embevecido com as qualidades artísticas de seu filho, se virou para ela e perguntou: "Não se sente orgulhosa por ser casada com este homem?"

Agora, com 90 anos, disse-me que nesse dia, conheceu a verdadeira dimensão com que o marido vivia a música...

Mais tarde, concretamente em 1956, por ocasião dos 25 anos do falecimento do Dr. João Antunes, e numa homenagem póstuma, voltou a ter a honra de dirigir um grupo de 15 "sobreviventes" do Orfeão.

Ainda mais uma nota...

Um dia, numa procissão do Senhor dos Passos, meu Pai seguia dirigindo a Banda de Música da Pocariça.

A dada altura, um dos filhos do Dr.João Antunes, abeirou-se dele e depositou-lhe nas mãos a Batuta  com que o ilustre Maestro havia dirigido tantas vezes o famoso Orfeão, dizendo-lhe que aceitasse, porque só ele era o seu único e legitimo herdeiro musical.

Meu Pai guardou-a com comovida gratidão. 

Nesta foto, pelos citados anos 40,  meu Pai encontra-se ao centro, a dirigir o citado e famoso Orfeão.

Meu Avô, António de Oliveira é o 3º. a contar da esquerda.

Lá em cima, o 2º. da esquerda é meu primo Florêncio Branquinho.

Peço perdão a todos os que não reconheço...mas muito estimo, por terem comungado também desse amor pela Música..."

 Isabel Vaio

in http://ivaio.blogs.sapo.pt/]





Um blog recomendado

15 03 2010

” EM MEMÓRIA DE SAÚL VAIO”, um blog de Isabel Vaio dedicado a seu pai, com referência obrigatória ao antigo Orfeão de Condeixa.

http://ivaio.blogs.sapo.pt/


Foto do Orfeão de Condeixa nos anos 40 dirigido por Saúl Vaio.





A Direcção do Orfeão

3 12 2009

A directoria do Orfeão de Condeixa: ao centro, o presidente, Dr João Antunes; à direita, o secretário, Sr. Abilino Augusto da Conceição e à esquerda, o tesoureiro, Damião Pena
in Padre-Boi não é lenda de M. Rodrigues dos Santos





Amigos

30 11 2009

Dr João Antunes na companhia do grande amigo Afonso Lopes Vieira (1878-1946).

Esta é uma das quatro fotos oferecidas por António Pinto.





As sopas de leite

29 11 2009
As sopas de leite na Arrifana

"As sopas de leite na Arrifana"

Esta é uma das 4 fotos que a partir deste mês enriquecem o espaço museológico da Associação Dr João Antunes.

O Orfeão agradece a gentileza do coralista e amigo Evaristo Veríssimo.

Fico a aguardar a história da foto.





O Teatro em Condeixa (III)

9 05 2009

Agora, o Teatro dos Bandeiras, sem concorrência, prosseguia calmamente o seu caminho, sempre semeado de êxitos, mas também de episódios curiosos. Um dia, representava-se o drama “Santo António”, com a sala cheia. Entretanto na plateia gerou-se um conflito com os ânimos de tal forma alterados que foi necessário interromper a função. Pouco satisfeito com a situação, Santo António, representado pelo próprio empresário do teatro, saltou para o meio do público, distribuindo alguns tabefes, enquanto Satanás, na sua condição de ensaiador, de mãos postas pedia por amor de Deus que acabassem a desordem! Quando o público se apercebeu do ridículo da situação, desatou às gargalhadas e o espectáculo prosseguiu em boa ordem. De outra vez, António José Pena ensaiou um dramalhão de faca e alguidar, tipo de peça muito ao gosto da época. No dia da estreia a sala estava cheia. Porém, logo que começou a representação o público, em vez de se comover com as cenas, ria desalmadamente, para desespero do encenador que esperava uma reacção de lágrimas. Logo que chegou ao intervalo, alguém explicou o mistério: o ponto reagia ao desenrolar da peça como se estivesse a representá-la: ria, chorava, fazia esgares e gestos e até indicava as entradas e saídas de cena. Tudo passaria despercebido, não fora o aderecista ter colocado um grande espelho ao fundo da cena e que reflectia a actividade do ponto no seu buraco. É claro que o público divertia-se mais com aquela representação extra!

O Teatro dos Bandeiras terminou a actividade em 1905. Em 1908, António Júlio Monteiro e Joaquim Augusto Simões construíram no local onde hoje se encontra a firma Coelho e Viais, ou um pouco mais ao lado, um barracão em madeira, com vasto palco, camarins e plateia para cerca de 300 pessoas. A primeira projecção cinematográfica em Condeixa foi realizada nesse barracão da Rua Lopo Vaz. Após a implantação da República, o local deixou de ser teatro, para a utilização como local de reuniões políticas. Em 1932, durante um breve espaço de tempo, também um celeiro da Quinta de S. Tomé foi sala de teatro, até à inauguração do Cine-Avenida, em 1 de Dezembro de 1932. O Grupo Cénico Dr. João Antunes ali representou várias peças e revistas, nomeadamente: “Noites de Santo António”, O Solar dos Barrigas” e “Secas e Picadas”, de grande êxito, já pela graça dos actores, como pelas inesquecíveis músicas do Maestro António de Oliveira, ainda hoje recordadas.

Dr Deniz Jacinto

Dr Deniz Jacinto

O teatro em Condeixa constituiu sempre uma necessidade cultural, mas nunca foi uma actividade constante, antes pelo contrário. De vez em quando surgiam arrobos de entusiasmo, seguidos de períodos de desânimo. O Clube de Condeixa, com João Pimentel das Neves ou Dr. Deniz Jacinto como encenadores, contribuiu de forma significativa para vários períodos de entusiasmante actividade teatral na vila.

[continua]

Texto: Cândido Pereira
Edição: MNujo




O Teatro em Condeixa (II)

7 05 2009

[...]

As fratricidas lutas entre Liberais e Miguelistas tiveram também, naturalmente, grande repercussão em Condeixa, provocando divisões e ódios. Passado este período e sanadas as feridas correspondentes, voltou a necessidade de retomar a actividade teatral.

Conseguida a cedência de uma casa na Rua Nova, pertencente a Fortunato Maria dos Santos Bandeira, foi ali construído um pequeno teatro com boas condições para a época. A sala comportava cerca de 200 espectadores e à sua volta foi construída uma galeria à altura de dois metros, ao centro da qual ao fundo e de frente para o palco se fez um camarote destinado ao dono da casa e sua família, única exigência de quem, durante muitos anos deixou de ser proprietário do prédio.

Para a inauguração foi escolhida a obra de Almeida Garrett, “O Camões do Rossio”, encenada pelo Dr. António Simões dos Reis. Posteriormente outros encenadores assinaram grandes êxitos, destacando-se os nomes de António José Pena e António Ferreira Pena, este último considerado o mais competente ensaiador que o teatro de Condeixa teve.

Almeida Garrett por Guglielmi

Almeida Garrett autor de "O Camões do Rossio"

Entretanto alguns dissidentes abandonaram o projecto e criaram outra sala de espectáculos, curiosamente na mesma rua, o que motivou o aparecimento de uma placa denominando o local como “Rua dos Teatros”.

Evidentemente, a existência de dois grupos numa terra tão pequena, gerou conflitos, com as gentes divididas nas preferências. A balança no entanto pendia para o Teatro dos Bandeiras, em detrimento do segundo, o Teatro dos Simões. Apesar disso, este último conseguiu grandes êxitos, tendo inclusivamente tido o mérito de atrair para o seu elenco elementos femininos, coisa quase inconcebível nesse tempo. Mas só assim foi possível levar à cena “O nascimento de Cristo”.

Por incrível que pareça, o fim do Teatro dos Simões, ficou a dever-se a um cortejo carnavalesco! Um dos maiores sucessos do grupo, foi a opereta “O enterro do Catimbau”. A comédia exigia a presença de um cavalo mas dadas as reduzidas dimensões da sala, o encenador substituiu o equídeo por um asno. Só a passagem do burrico a caminho do ensaio constituía propaganda para o espectáculo. No Domingo Gordo de 1870, um grupo de brincalhões teve a ideia de parodiar a peça. O cortejo começou na Faia e atravessou a vila em direcção do Paço. Todos os personagens da comédia eram parodiados o que, como se calcula, acabou por ferir susceptibilidades e o cortejo terminou com cabeças partidas e prisão para os mais exaltados. Embora na altura alguns dedos apontassem os elementos do Teatro dos Bandeiras, parece que isso não correspondia à verdade. De qualquer forma, foi a partida para o encerramento do Teatro dos Simões.

[continua]

Texto: Cândido Pereira
Edição: MNujo







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