Desde os memoriais tempos da fundação de Portugal que chegam relatos de manifestações de ajuda e beneficência para com os mais carenciados, associadas por norma a ordens religiosas, militares, confrarias e particulares, quase sempre inspiradas na caridade cristã.
Estas manifestações caritativas decorreram de forma dispersa e desordenada até finais do Sec XV, altura em que com a acção da Rainha D. Leonor sofreram uma profunda alteração que chegou aos nossos com os beneméritos propósitos que instituiu – a Misericórdia.

A Rainha D. Leonor detinha a época a maior fortuna da Europa (quadro de José Malhoa)
A Rainha D. Leonor (de Lencastre, casada com o rei D. João II (n.1455-f.1495), O Príncipe Perfeito) senhora de grande património, distinguiu-se no campo da assistência, ao criar por volta de 1484[1] o primeiro hospital termal, nas Caldas da Rainha dedicado aos pobres, e na igreja instituiu uma confraria precursora da Misericórdia.

Xilogravura da Vita Christi, primeiro livro impresso em Portugal, em 1495, ilustrando D. João II e D. Leonor de Lencastre
Foi já como viúva (e no reinado de seu irmão D. Manuel I que subiu ao trono em 1495) que há notícia da maioria das obras realizadas:
- o convento da Madre de Deus em Xabregas;
- o Convento da Anunciada de Lisboa;
- a Igreja de Nossa Senhora da Merceana;
- as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha;
- sete merceeiras no Convento de S. Agostinho;
- o apoio às Artes em geral e a Gil Vicente em particular que lavou a incomparável custódia de Belém.
Mas de todas as obras, a “maior” que fomentou e financiou foi o projecto de Frei Miguel Contreiras, seu confessor e mestre espiritual. Resultou desta parceria a Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa que ficou sob a protecção régia em 1498, e que esteve na origem de todas as outras (Misericórdias) que lhe seguiram por todo o país e pelo mundo, sempre com o papel social e caritativo que a rainha cultivou.
Aquele grupo de “bons e fiéis cristãos” que formaram a Irmandade, liderados por Frei Miguel Contreiras, na presença da rainha D. Leonor e das mais altas personalidades religiosas e civis, assumiu o compromisso de se dedicar à prática das 14 Obras de Misericórdia.
As Sete Obras Corporais
1. Dar de comer a quem tem fome.
2. Dar de beber a quem tem sede.
3. Vestir os nús.
4. Dar pousada aos peregrinos.
5. Assistir aos enfermos.
6. Visitar os presos.
7. Enterrar os mortos.
As Sete Obras Espirituais
1. Dar bom conselho.
2. Ensinar os ignorantes.
3. Corrigir os que erram.
4. Consolar os tristes.
5. Perdoar as injúrias.
6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo.
7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.
São estes, passados cinco séculos, os princípios que regem e estão na base da obra social das Misericórdias.
Passados dois anos sobre a fundação da Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa, no dia 12 de Setembro de 1500, por decisão régia de D.Manuel I, a Santa Casa da Misericórdia de Coimbra era fundada, ficando as terras de Condeixa sob a sua alçada.
Nos anos seguintes, Condeixa-a-Nova regista um grande desenvolvimento. Em 1502 D. Manuel I passa por Condeixa a caminho de Santiago de Compostela, onde manda construir uma Igreja. Em 1514 atribui-lhe foral [2],sinal de evidente prosperidade, mas não a suficiente para ter uma Misericórdia (só tinha cerca de 20 fogos). Entretanto, Soure, Pereira, Vila Nova de Anços e Montemor juntavam-se a Coimbra na lista de localidades com Misericórdias.
Em 17 de Abril de 1837 Condeixa-a-Nova passou a concelho, deixou de pertencer ao de Coimbra, mas só em 1 de Janeiro de 1839 toma posse o primeiro executivo liderado por Franscico de Lemos Ramalho Azeredo Coutinho. Em 1885 a população de Condeixa-a-Nova tinha aumentado para 1159 habitantes e com o passar do tempo aumenta também o desejo de ter uma Misericórdia.
Isto não foi motivo para não se praticar a caridade e a ajuda ao próximo. A Misericórdia de Coimbra ia dando o apoio social com as limitações de quem está longe. Localmente o apoio social completava-se pela acção dos particulares. As casas mais abastadas não fechavam a porta aos famintos e mesmos aqueles que pouco tinham repartiam o que mal lhes chegava para sobreviver, uma caracteristica que ainda hoje se verifica em qualquer campanha de angariação de fundos – o povo português é sensível às desigualdades sociais e muito dado à partilha.
Existem notícias de ter havido em Condeixa até ao princípio do sec. XIX uma gafaria (para o tratamento de leprosos) e uma albergaria (para acolher os pobres e viandantes), que sendo verdade a sua existência, confirmam e justificam os anseios da população na necessidade de uma Misericórdia que tardava em chegar.
Foi preciso esperar quatro séculos para Condeixa-a-Nova ter a sua Misericórdia em 1927.
Triste sina duma terra que não tem Bula, Carta Régia ou Foral para mostrar. No entanto, a grande obra da Misericórdia de Condeixa mostra que não existe qualquer estigma pela ausência de título nobre no seu historial.
[1] Há quem indique o ano de 1485.
[2] Do foral só se conhecem referências.
40.134200
-8.500242
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